quarta-feira, 5 de março de 2014


BARTOLOMEU RODRIGUES
O QUE ESTÁ POR TRÁS DOS PRAZERES DA CARNE
Publicado: 4 de março de 2014 às 13:01
O que levou Roberto Carlos a fazer propaganda de carne, causando gastura entre os que o tinham na conta de vegetariano, não foi outra coisa senão o bom cachê. É, ao final das contas, tudo businessmoney money, o vil metal que desde que o mundo é mundo vira a cabeça das pessoas.
Quantas centenas ou milhares de quilos de picanha valem o reclame é outra continha que nem aconselho fazer pra não bater aquele peso na consciência. Nossa condição de homo sapiens carnivorus é um tanto assim cheia de culpa, daí porque, na antiguidade, o abate de animais era cercado de rituais complexos. A carne nos chega hoje embalada, tecnicamente imune a germes patogênicos e a publicidade, por sua vez, se encarrega de afastar qualquer ideia de sangue e dor.
Será que isso explica o sorriso amarelo do rei ao final do comercial?
A crermos nos números divulgados pela imprensa, o BNDES já aportou mais de R$ 8 bilhões no grupo JBS-Friboi, que decerto não vê problema algum em reservar alguns bons trocados para propaganda, pondo a seu serviço quem sabe algumas dezenas de vegetarianos e veganos. Também nos informa o mercado que esse mesmo grupo, após a compra da americana Swift, em 2007, se posiciona como a maior companhia de carne bovina do mundo. Nem vou falar da receita líquida, que passa da casa dos bilhões de dólares. Consta que a companhia responde por 39% do abate nacional, ou seja, de cada dez bois abatidos no Brasil, 3,9 são dela.
Contudo, a realidade nos matadouros país afora é outra. Imagine a seguinte sequência: o boi amarrado a um poste recebe uma marretada na cabeça, cambaleia e cai, zonzo, mas ainda vivo. Então vem o matador e lhe passa a lâmina na jugular, deixando o sangue jorrar entre fezes e tripas. Não, não estou falando da Friboi nem de outro grande abatedouro, onde são utilizadas técnicas bem mais sofisticadas, assépticas e, dizem, indolores.
Estou falando é da metade da carne que o brasileiro comum consome e que não passa por inspeção sanitária: o comércio clandestino. Segundo estimativas da delegacia do Ministério da Agricultura, essa é a condição de 60% da carne consumida, por exemplo, em São Paulo. Logo, é de se perguntar se não deveria o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, dentro das suas prerrogativas de ofício, examinar esses números para responder aos contribuintes (carnívoros ou não) se o que se pretende com uma campanha tão grande não seja consolidar uma condição de monopólio. Nesse caso, quem sabe, podem esses mesmos contribuintes dizer ao governo que melhor seria destinar o dinheiro para tirar os abatedouros de pequeno porte da clandestinidade. Assim, todos poderiam gozar dos prazeres da carne sem culpa.
Queiramos ou não, como diria o genial historiador Will Durant, por detrás das bibliotecas, das instituições filosóficas e de todas as grandes conquistas humanas se escondem os cemitérios de ossos dos animais que devoramos. A civilização devia erguer uma grande estátua em homenagem ao porco, a quem lhe deve tanto, por mais embaraçoso que seja.

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